Kassab agora corre risco de ficar isolado
E que fique mesmo! Essa cria de Pitta e Serra não pode mais ocupar cargos públicos. Pena que ao invés de ovos, não lançaram certo excremento, o que espelharia melhor a administração demotucana em São Paulo
Que fase! Rejeitado pelos dois principais partidos a quem ofereceu aliança, batendo recordes negativos de popularidade, o prefeito Gilberto Kassab se viu acuado dentro do carro oficial ao sair quarta-feira da missa de aniversário da cidade na Catedral da Sé.
Xingado e alvejado por ovos e pedras jogados por cerca de 800 manifestantes, Kassab, na verdade, estava pagando pelo que não fez. O protesto era contra as ações policiais na Cracolândia e no Pinheirinho, em São José dos Campos, responsabilidade do governador Geraldo Alckmin, que achou melhor não ir à missa.
No mesmo dia, o prefeito ficou sabendo que Rui Falcão, presidente nacional do PT, descartou liminarmente qualquer possibilidade de aliança com o PSD de Kassab, que ofereceu a Lula um vice para o candidato petista Fernando Haddad.
Falcão foi peremptório e fechou a porta para qualquer negociação: “Em nenhum momento cogitamos isso. Nem o prefeito Kassab está cogitando. Temos feito oposição ao prefeito Kassab”.
O PSDB, por sua vez, também fechou questão: vai ter candidatura própria e já marcou suas prévias para março. Alckmin não quer conversa com Kassab, aliado de José Serra, seu principal adversário no poleiro tucano. Nas últimas eleições municipais, em 2008, Serra e Kassab se uniram contra Alckmin e deixaram o atual governador fora do segundo turno.
Kassab, porém, não perde as esperanças de fazer aliança com um dos dois grandes partidos, qualquer um. Depois de trocar agrados com a presidente Dilma Rousseff, na cerimonia de entrega das medalhas de 25 de janeiro, durante a celebração dos 458 anos de São Paulo, o prefeito voltou a repetir aos jornalistas:
“É evidente que o partido irá analisar as alianças possíveis, e não se exclui o PT nem o PSDB”.
O mais provável no momento é que Kassab fique isolado na disputa pela sua sucessão e só lhe restará a alternativa da candidatura própria do PSD. Mesmo que não tenha chances de vitória, pelo menos terá alguém para defender sua administração dos ataques que certamente virão de todos os lados.
O problema é que o único nome viável de que dispõe é o do vice-governador Guilherme Afif, que não me parece muito animado a ir para o sacrifício. Basta lembrar que, sem alianças, o PSD terá apenas um minuto de tempo na televisão, dez vezes menos do que PT e PSDB.
No começo da campanha, parecia que Kassab tinha o jogo nas mãos, procurando simultâneamente lideranças do PT e PSDB, que há anos disputam a hegemonia em São Paulo. Jogou alto, mas agora corre o risco de perder tudo e ficar pendurado na brocha.
Agora, no máximo, poderá ser o fiel da balança, dependendo de quem irá apoiar no segundo turno. Por mais que Dilma e Lula gostassem de ter o PSD de Kassab como aliado agora, pensando nas campanhas em todo o país e na sucessão de 2014, as pretenções do prefeito esbarram nas lideranças partidárias locais.
Prefeitura mantém projeto de venda de terrenos públicos
Os espaços oferecem equipamentos de Saúde, Educação e Cultura, como o do Quarteirão do Itaim que ainda é um patrimônio da cidade
Roberto Miralles NOTÍCIAS – Demais
A prefeitura de São Paulo ainda tem planos de vender 20 terrenos públicos para a iniciativa privada. Entretanto, diversos equipamentos destinados aos munícipes ocupam as áreas em questão, o que tem mobilizado moradores em defesa dos espaços de uso coletivo.
A ligação estreita entre o prefeito Gilberto Kassab e o setor imobiliário é comentário comum entre a população da cidade sendo tema recorrente nos editoriais dos grandes jornais de São Paulo. De outro lado, a oposição especula com o fato de já haver relações desde os tempos da campanha à prefeitura de São Paulo (2008), subsidiada pelas grandes empreiteiras e que agora querem sua parte do bolo.
A motivação da ação municipal de entregar seus terrenos ao mercado imobiliário é de que há necessidade de acabar com o déficit de vagas em creches na periferia de São Paulo. Isso se deve ao fato, segundo a prefeitura, de que os trâmites burocráticos impedem a construção rápida de creches, o que não aconteceria com a ajuda da iniciativa privada.
As ONGs, moradores das regiões atingidas e sociedade civil organizada acreditam que existem diversos modelos alternativos para a construção dessas creches e que podem ser mais ágeis, como as Parcerias Público-Privadas e iniciativas como as que possibilitaram a rápida ampliação da Marginal do Rio Tietê e estão acelerando as obras do Itaquerão e dos arredores.
O caso no Itaim Bibi
O quarteirão localizado no bairro do Itaim Bibi, na zona Sul, abriga uma creche, duas escolas, uma unidade básica de saúde, uma biblioteca, um teatro, um prédio da APAE (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais), um Centro de Apoio Psicossocial (CAPS) e uma importante área verde. A área mantém um conceito de planejamento escolar idealizado na década de 40 por pedagogos e urbanistas, buscando uma melhor formação para crianças e jovens, na busca de um cidadão mais envolvido com sua cidade.
A união de diversos equipamentos que envolvam Saúde, Educação e Cultura promovem uma troca de experiências fundamentais para uma percepção mais ampla das diversas realidades e uma formação do espírito de comunidade, objetivo principal do projeto desenvolvido no quarteirão.
Os moradores já se organizaram e conseguiram iniciar o processo de tombamento da área junto ao Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico Arqueológico, Artístico e Turístico (CONDEPHAAT), que agora avalia os argumentos apresentados para darem o parecer. Enquanto esta decisão não sai, a prefeitura não pode realizar qualquer alteração na área.
O caso emblemático do quarteirão do Itaim Bibi pode ajudar a evitar que os outros terrenos sejam vendidos e que a prefeitura perceba que agindo assim, vários espaços públicos serão perdidos para sempre, diminuindo o estoque de reserva necessário para a cidade. Além disso, o exemplo que os moradores do quarteirão dão à cidade é a do pleno exercício da cidadania e defesa do bem comum e histórico da cidade.
Prefeitura previa gastar R$ 207 milhões no ano passado, mas apenas R$ 120 milhões foram investidos
Temporal causa enchentes em São Paulo
Mesmo com o caixa cheio, a Prefeitura de São Paulo destinou em 2011 o menor percentual do valor previsto no Orçamento para obras antienchente desde o início da gestão Gilberto Kassab (PSD), em 2008. Dos R$ 207 milhões anunciados, apenas R$ 120 milhões (58%) dos recursos foram realmente utilizados.
Nos últimos dois anos, o número de pontos de alagamento dobrou, de 740 para 1.480. Além de obras, os recursos também deveriam ter sido aplicados no programa de monitoramento de enchentes e de áreas da cidade com risco de deslizamento.
A diferença entre o montante previsto no Orçamento para o ano passado e a quantia que de fato foi empenhada faz parte de inquérito do MP (Ministério Público), que investiga as ações realizadas pela administração municipal para reduzir os estragos causados pelas chuvas nos últimos anos.
De acordo com os dados repassados pela Sempla (Secretaria de Planejamento), que constam no inquérito de 18 volumes, em 2010, 95% dos recursos previstos foram usados. Em 2009, Kassab havia investido 77% da verba orçada.
Para este ano, a previsão orçamentária repassada pela Sempla indica um investimento de R$ 276 milhões. O valor, em ano eleitoral, é o maior já planejado pela gestão Kassab.
Do total, R$ 5,5 milhões devem destinados para monitoramento de piscinões e áreas de risco. Procurada, a assessoria da prefeitura informou que todos os dados referentes às ações de combate e prevenções às enchentes foram repassados ao Ministério Público. A prefeitura diz que os dados estão disponíveis no site da Sempla, que detalha o valor orçado e o empenhado.
Davi Franzon, do Metro SP noticias@band.com.br
Ao mesmo tempo, desconfiança no poder público cresceu. Segundo pesquisa, 30% consideram administração de Kassab “ruim ou péssima”
Uma pesquisa encomendada pela Rede Nossa São Paulo ao Ibope divulgada nesta quarta-feira revela que, para paulistanos, a qualidade de vida na capital piorou. Ao mesmo tempo, a desconfiança no poder público cresceu. De acordo com a pesquisa, 30% dos entrevistados avaliaram a gestão de Gilberto Kassab à frente da cidade como “ruim ou péssim”.
Foram entrevistados 1.512 moradores da capital paulista com 16 anos ou mais entre os dias 25 de novembro e 12 de dezembro de 2011. A margem de erro é de 3 pontos percentuais para mais ou para menos. A pesquisa abordou 25 temas subjetivos, como sexualidade, espiritualidade, aparência, consumo e lazer, e outros que tratam de condições mais objetivas de vida, como saúde, educação, meio ambiente, habitação e trabalho.
De acordo com a Rede Nossa São Paulo, a avaliação do poder público municipal registrou queda acentuada. Quando questionados sobre a “atual administração municipal”, 30% a consideraram “ruim/péssima”. Em 2010, o número estava em 21%. Sobre a “subprefeitura da região”, 31% consideram “ruim/péssima”, contra 23% no ano anterior. Com relação à Câmara dos Vereadores, o percentual de avaliações “ruim/péssima” aumentou de 36% para 42%.
Questionados se gostariam de deixar a capital, 56% dos entrevistados afirmaram que, se pudessem, mudariam de cidade. No ano passado, esse número era de 51%. A nota geral para a qualidade de vida na cidade, contudo, apresentou leve queda e passou de 5,0 em 2010 para 4,9 em 2011.
A falta de segurança permanece no topo da lista das preocupações do paulistano. Entre os principais medos, “assalto/roubo” ficou em primeiro lugar, com 69% das respostas. Em 2010, o item estava em segundo lugar e tinha 59% das respostas. A preocupação com “atropelamentos” passou de 12% para 17%, de acordo com a pesquisa. A sensação de insegurança cresceu significativamente em São Paulo: em 2010, 24% consideravam a cidade “nada segura” para se viver. Em 2011, o número passou para 35%.
Serviços
O tempo médio de espera para atendimento de saúde diminuiu, mas permanece alto. Para a realização de consultas, a espera é de 52 dias. Em 2010, esse número era de 61 dias. Para a realização de exames, 65 dias (76 em 2010); e para procedimentos mais complexos, 146 dias (166 em 2010). No serviço privado de saúde, o tempo médio de espera para uma consulta é de 15 dias, para exames é de 17 dias e para procedimentos mais complexos, 39 dias.
O tempo médio de espera nos pontos de ônibus é de 22 minutos. Como a pergunta foi aplicada pela primeira vez neste ano, não há comparativo com os anos anteriores.
Das 25 áreas avaliadas pela pesquisa, 19 receberam notas abaixo da média, que é 5,5. As piores notas foram para as áreas “Desigualdade Social”, “Acessibilidade para Pessoas com Deficiência” e “Transparência e Participação Política”.
Desconfiança
Houve queda na confiança dos entrevistados com relação a todas as instituições e órgãos públicos apresentados no questionário, de acordo com a Rede Nossa São Paulo.
As instituições que mais obtiveram respostas positivas de índice de confiança foram os Bombeiros (86%), os Correios (81%), o Metrô (74%) e a Sabesp (70%).
Já as que mais receberam respostas de desconfiança foram Câmara dos Vereadores (69%), Tribunal de Contas do Município (63%), Prefeitura de São Paulo (64%) e Subprefeituras (59%).
O que assusta é a solução, sempre óbvia, de convocar a Polícia Militar para resolver problemas muito mais complexos
Erich Vallim Vicente
A imagem é comum, até certo ponto desgastada: em lado opostos, pessoas sem armas – ou, vá lá, com algumas pedras e paus –, a maioria mal vestida, contra soldados da Polícia Militar, estes equipados com capacete, escudos, armados com pistolas, granadas etc. Mais do que uma informação, a cena tem se tornado cada vez mais, sobretudo no Estado de São Paulo, parte da paisagem urbana. Se não é com estudantes da USP, é contra viciados em drogas da Cracolândia, verdadeiros “zumbis” na caótica vida urbana.
Anunciada pelo governo estadual, em parceria com a Prefeitura de São Paulo, como “o fim da Cracolândia”, a ação de ocupação destes locais de uso de drogas a céu aberto na capital paulista tem se mostrado um grande furo na água, especialmente com a informação, publicada nesta terça-feira nos principais jornais, de que havia sido agendada, para abril, a intervenção policial a partir de bases fixas nestes locais, depois de um amplo trabalho de fortalecimento das redes de proteção social para estes usuários.
O que assusta é a solução, sempre óbvia, de convocar a Polícia Militar para resolver problemas muito mais complexos para serem resolvidos apenas com a abordagem policial. Aconteceu ano passado, na Cidade Universitária, acontece agora, na Cracolândia, e, de um caso a outro, a semelhança de que o governo paulista tem uma dificuldade imensa de buscar outra alternativa que não essa, de desenvolver uma política feita para massagear o sentimento de quem vê na violência a única forma de controle social.
Nas diversas discussões sobre o tratamento com os usuários de drogas, inclusive nas que são desenvolvidas no âmbito do Fórum Permanente Sobre Álcool e Outras Drogas, em Piracicaba, coordenado pelo vereador Bruno Prata (vale lembrar, do próprio PSDB), fala-se sobre a necessidade de fortalecer e expandir a chamada “rede de proteção”. Não adianta o Estado dispersar de um lado, como determinado, que os usuários aparecerão em outro, como está acontecendo, já que sua primeira necessidade é a droga e, por ela, farão de tudo. É a realidade cruel.
O governo paulista e a prefeitura de São Paulo jogam a favor de um pensamento de que “algo tem que ser feito”, e, sob o manto da “agilidade”, “de não mais postergar o problema” e de uma pseudo-eficácia, manda a Polícia Militar descer o sarrafo, como se dele surgisse a solução para todos os problemas sociais. Ainda, e pior, movidos por interesses políticos regionais, passam por cima de uma política nacional de combate ao crack, em andamento para ser desenvolvida não só em São Paulo, mas em outras capitais estaduais com o mesmo problema.
É uma estratégia tão medíocre que apenas contribuiu para fortalecer ainda mais a imagem pouco popular da Polícia Militar junto à população, como se fosse ela a culpada por governos que se esquecem de fazer política pública e optam pela opressão, pelo medo e pela violência.
A Tribuna
Promotores classificam operação como “precipitada e desorganizada”, não descartam ligação com ano eleitoral e acreditam que Polícia Militar boicota trabalho de agentes de saúde
São Paulo – O Ministério Público Estadual anunciou nesta terça-feira (10) a abertura de inquérito para apurar a responsabilidade sobre a ação policial deflagrada na semana anterior na região da Luz, no centro de São Paulo, conhecida como cracolândia. Os promotores querem saber de onde partiu a ordem para a operação repressiva, como ela foi articulada e se houve aplicação de recursos desproporcional aos resultados obtidos.
“É uma operação precipitada e desarticulada”, afirmou Eduardo Valério, promotor de Direitos Humanos na área de Inclusão Social, em conversa com jornalistas. Até agora não ficou claro se a ordem para o começo da repressão veio do governador Geraldo Alckmin, do prefeito Gilberto Kassab, da Secretaria de Segurança Pública paulista ou diretamente da Polícia Militar.
Valério e os colegas das promotorias de Direitos Humanos na área de Saúde Pública, de Habitação e Urbanismo e da Infância e da Juventude não descartam mover ação de improbidade administrativa contra os comandantes da operação, que, consideram, apresentou balanços pífios se comparada aos recursos humanos e materiais mobilizados desde o último dia 3. Segundo o último boletim disponível, atualizado nesta terça-feira (10), foram apreendidos 447 gramas de crack e presas 23 pessoas em 2.220 abordagens policiais. De 788 abordagens de saúde, 28 resultaram em internações e 33 em encaminhamentos aos serviços públicos.
Valério considera que a operação policial só faz agravar o problema, dado que tem espalhado os dependentes químicos por várias áreas da cidade, dificultando o trabalho realizado ao longo do tempo por agentes de saúde e de assistência social. “A polícia boicotou o trabalho que vinha sendo tentado por agentes sociais”, argumenta, fazendo referência ao elo de confiança que se estabelece entre os representantes do poder público e os usuários de drogas. O Ministério Público acredita que a operação coloca “de ponta-cabeça” a ordem do trabalho que deveria ser realizado. Eles pensam que o primeiro trabalho é garantir um atendimento social e de saúde para todos os dependentes, para entrar apenas em último caso com o trabalho policial, e somente no que diz respeito aos traficantes.
Os promotores estranham também o momento em que é desencadeada a operação. Eles não enxergam fato novo que justifique a intervenção e lembram que dentro de poucas semanas estará inaugurado pela prefeitura o Complexo Prates, que terá capacidade de atender uma quantidade muito maior de dependentes químicos. Questionado a respeito, Valério não descarta a conexão entre o ano eleitoral e os resultados do trabalho na Luz. “É possível. Afinal, estamos em um momento político importante, mas não é possível afirmar isso com certeza.”
Mauricio Antonio Ribeiro Lopes, da Promotoria de Habitação e Urbanismo, considera que houve precipitação na ação policial. “O que percebemos é que o jogo começou e não estavam todos em campo ainda. Colocou o time inteiro nas mãos do adversário. O jogo agora começa perdido.”
Ele evita fazer uma conexão direta entre a repressão e a tentativa de deixar “limpa” a região, que o prefeito Gilberto Kassab deseja chamar de Nova Luz. O principal projeto do segundo mandato é a transformação urbana da área central da cidade, alvo de críticas de comerciantes e moradores locais e de especialistas, que entendem que a finalidade é abrir uma frente de lucro para as construtoras com a criação de uma área bem equipada pronta para novos investimentos. Lopes argumenta que a liminar obtida recentemente proibindo a administração Kassab de promover o licenciamento da região para o setor privado diminui, ao menos em tese, a pressa pela expulsão dos dependentes.
Uma reunião agendada para a sexta-feira (13) entre representantes dos governos estadual e municipal e o Ministério Público dará o pontapé inicial nas investigações. Espera-se contar com a presença de Alda Marco Antonio, secretária municipal de Assistência Social e vice-prefeita, Ricardo Pereira Leite, secretário de Habitação, e Elizabete França, superintendente municipal de Habitação Popular, além de representantes do governador Alckmin.
O promotor Eduardo Valério critica a declaração do comando da Polícia Militar de que a operação seria guiada à base de “dor e sofrimento” e indica que o princípio da igualdade entre os cidadãos é quebrado a partir do momento que uma intervenção reprime indiscriminadamente usuários, uma questão de saúde, e traficantes, uma questão policial. “Estas pessoas já sofreram o suficiente pela vida e pela droga. Não é necessário que o Estado lhes imponha uma dose adicional de dor e de sofrimento.”
Saúde sem repressão
Arthur Pinto Filho, da Promotoria de Direitos Humanos na área de Saúde Pública, critica a desarticulação entre as esferas do poder público. Para ele, a prova da falta de uma organização mínima da operação é a indicação para que os dependentes químicos fossem encaminhados à unidade de Assistência Médica Ambulatorial (AMA) da Boraceia, no centro, que funciona durante apenas doze horas ao dia e, pior, não presta atendimento a esta especialidade. Além disso, a maior parte das duzentas vagas para internação de adictos na cidade já está preenchida, sendo impossível atender ao contingente existente na área da cracolândia, um problema que seria amenizado a partir de fevereiro com a abertura do Complexo Prates.
O promotor lamenta também a ênfase dada pelos governos estadual e municipal à internação compulsória, neste caso com autorização do Judiciário. “A internação compulsória é possível em condições especialíssimas. Não se pode imaginar a internação compulsória como política pública para resolver a questão do crack”, diz Pinto Filho, acrescentando que seria preciso promover uma avaliação rigorosa de cada caso antes de adotar este expediente.
Uma outra questão envolvida na investigação é o tratamento dispensado pelos agentes públicos a crianças e adolescentes. A ideia é saber, de um lado, sobre a responsabilidade do tratamento igual aplicado a adultos e a menores de idade, violando o Estatuto da Criança e do Adolescente, e, de outro, sobre a falta de um encaminhamento dos filhos de detidos para abrigos e familiares. “Uma das medidas que estamos tomando é justamente expedir ofício para a Secretaria Municipal de Assistência Social para que nos identifique essas crianças”, diz a promotora Luciana Bérgamo, que lembra que o tratamento de dependência química sem o contato com a família pode se tornar inócuo.
Após apurar as responsabilidades, os promotores querem promover uma integração das políticas públicas dos governos federal, estadual e municipal. Eles se queixam que atualmente cada um age de uma maneira, inclusive dentro da mesma esfera administrativa, colocando a perder os trabalhos bem sucedidos.
Sufoco
A investida policial contra usuários de drogas na região da Luz foi criticada por grupos que trabalham com dependentes químicos, que defendem uma abordagem de saúde para a questão. Os ativistas consideram um equívoco a postura ofensiva desencadeada na primeira semana do ano por Alckmin e Kassab.
A Polícia Militar argumenta que precisa usar táticas agressivas para “quebrar” o abastecimento da cracolândia. As ações dos últimos dias incluíram uso de disparos de balas de borracha, bombas de gás lacrimogêneo e cassetetes. A corporação fala em uma estratégia de “dor e sofrimento” para mudar a região, que responde pelo principal plano urbanístico da gestão Kassab, o Nova Luz, que promete poder transformar a região com a concessão a empresas privadas do setor de construção de prerrogativas de desapropriações e outras intervenções.
Em entrevista coletiva concedida nesta semana, os comandantes da ação da prefeitura e do governo estadual indicaram que, dentro de um mês, começam a ser abertos os centros de assistência social no bairro. Em 60 dias, os de saúde passarão a funcionar, ainda segundo as fontes oficiais.
Por: João Peres, Rede Brasil Atual
A administração Kassab tem promovido uma série de intervenções em diversos bairros da cidade. A última e que tem chamado muito a atenção de todos tem sido na região central, mais especificamente na área conhecida como “Cracolândia”. Antes deste local já sofreram intervenção policial bairros como o Brás e a favela da Paraisópolis.
Na “Cracolândia”, o pretexto para a repressão é o combate ao tráfico de drogas e a “degradação” do Centro; no Brás a desculpa era um suposto combate ao comércio irregular; e em Paraisópolis o aumento do número de assaltos no Morumbi é atribuído aos moradores da comunidade que faz divisa com um dos bairros mais ricos da capital paulista e do Brasil.
Por trás destas operações, no entanto, está o mercado imobiliário que busca adquirir terrenos e imóveis em condições favoráveis. Esta situação tem levado a ameaça de desapropriação e a possibilidade de se ver obrigado a morar ainda mais longe do centro a diversas famílias da cidade.
Neste sentido, o que está acontecendo na Luz, onde está situada a “Cracolândia”, deve servir como um alerta a todos os cidadãos.
Em 2009, foi aprovado na Câmara Municipal um projeto conhecido como Lei de Concessão Urbanística. Esta Lei autoriza a prefeitura a repassar para a iniciativa privada, no caso empresas do ramo imobiliário, o direito de desapropriar moradores em áreas onde ocorrerão projetos de revitalização.
Até então, apenas o poder público tinha este direito, e mesmo assim, apenas em casos restritos. Via de regra, as desapropriações só poderiam ser feitas pelo município, estado ou União caso a área passasse a ter uma utilidade pública. Ou seja, se no local fosse construída uma avenida, escola, creche, hospital etc.
Agora, as grandes empreiteiras podem agir livremente para desapropriar para fins de revenda. Isto que esta acontecendo na região da Luz. O que nos leva a conclusão que não se trata de repressão ao tráfico, nem de colocar fim a um ponto de consumo de drogas. A operação é uma preparação para uma ação futura das grandes empreiteiras.
Neste sentido, se o projeto contra o projeto “higienista” de Gilberto Kassab for bem sucedido na região da Luz a tendência é que ele se espalhe para toda a cidade. Por isso, é preciso combater a ação policial e denunciar que por trás da repressão se escondem os interesses do mercado imobiliário.
Fonte: Causa Operária Online
São Paulo – O Ministério Público Estadual anunciou a abertura de inquérito civil para apurar ilegalidades ou omissões cometidas pela prefeitura de São Paulo em relação às medidas adotadas após o incêndio na favela do Moinho, na região central da cidade. O promotor de Justiça de Habitação e Urbanismo Maurício Antonio Ribeiro Lopes recebeu informações de que houve atendimento insatisfatório às famílias que ficaram desabrigadas em virtude do fato, ocorrido no dia 22 de dezembro.
A interrupção de duas linhas de trens metropolitanos e a implosão malograda do antigo prédio do Moinho, com custo de R$ 3,5 milhões aos cofres da administração municipal, também serão alvo da apuração.
O promotor quer saber da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) as condições de segurança para circulação das locomotivas após a implosão. O prefeito Gilberto Kassab contratou os serviços de duas empresas privadas em caráter emergencial alegando que a derrubada do edifício era necessária para devolver a normalidade ao sistema de transporte coletivo, mas apenas uma parte do edifício caiu.
Embora o prefeito considere que a operação foi bem sucedida, especialistas ouvidos por diversos veículos de comunicação consideraram fracassada a tentativa de implodir as estruturas e manifestaram estranhamento com a notícia de que 800 quilos de dinamite foram utilizados, uma quantidade considerada excessiva.
O Ministério Público solicitou ainda acesso a todos os contratos firmados pela prefeitura, incluindo os laudos técnicos sobre o prédio. Da Secretaria Municipal de Habitação, Lopes espera obter o número de famílias cadastradas após o incêndio, a situação de cada uma delas e todas as providências adotadas até agora. Na segunda-feira (9), um engenheiro do Ministério Público realizou uma vistoria no edifício parcialmente implodido. O resultado da análise será somado à investigação.
Por: Redação da Rede Brasil Atual
Prefeito já irrita tucanos; ele diz a ex-presidente para escolher qualquer nome do partido para formar chapa com Fernando Haddad; Henrique Meirelles pode virar vice; estresse na aliança histórica com Zé Serra; outubro começou agitado em janeiro!
O prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, começou 2012 criando o fato político do ano. Para o bem e para o mau. Na semana passada, no Hospital Sírio-Libanês, ele visitou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva com uma mensagem direta: se quiser, Lula pode escolher qualquer nome do PSD para concorrer a vice na chapa encabeçada por Fernando Haddad, do PT, para prefeito de São Paulo. É o que informa a Folha de S. Paulo, em reportagem de Natuza Nery e Catia Seabra.
“Foi (algo como) vamos estar juntos”, confirmou o prefeito sobre o encontro, esquivando-se, porém, de admitir com todas as letras a generosa oferta. “Não era momento apropriado”, defendeu-se. Mas era sim. E mais: a cartada de Kassab representa um rompimento à sua histórica aliança com o ex-governador José Serra, que ficaria na mão, sem o respaldo de Kassab, nesta articulação.
O nome do ex-presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, sobressai como a provável escolha números 1, 2 e 3 de Lula dentro do PSD, se Lula quiser mesmo formar a aliança. Para entrar no partido de Kassab, o ex-chefão do BC de Lula foi ao ex-presidente, antes de mais nada, para saber se poderia assinar a ficha de filiação. Obteve um sinal verde absolutamente luminoso. O resultado dessa triangulação começa a fazer efeito a partir de agora.
O gesto de Kassab já irrita os tucanos do PSDB, que ensaiam, por meio do governador Geraldo Alckmin, uma aliança com o partido do prefeito. Em troca de apoiar agora um nome do partido de Kassab, Alckmin contaria com o aval de Kassab ao seu próprio nome em 2014, quando irá concorrer à reeleição ao Palácio dos Bandeirantes. O prefeito, ao procurar Lula, está dizendo que não quer esse apoio cruzado com o tucano – exatamente porque ele próprio, Kassab, sonha com o governo paulista nas futuras eleições.
Igualmente, a possível aliança PT-PSD pode abalar estruturas dentro do próprio PT paulistano. O partido, que viu Lula indicar como quis Haddad como candidato a prefeito, estaria esperando, agora, ficar livre para escolher um vice para o até aqui ministro da Educação. Uma chapa puro sangue, como é típico dos petistas. Lula, que gosta de alianças, se comprar a ideia lançada por Kassab vai entrar em mais essa disputa – e, como sempre acontece, tem todas as chances para ganhar a parada. Uma chapa Haddad-Meirelles, se emplacar uma vitória para a Prefeitura, seria uma vitória pessoal do ex-presidente – e, claro, do matreiro Kassab, raposa política que, por ser raposa, é ágil, astuta e, sabe-se também, traiçoeira.
Fonte: Brasil 247
Na didática do prefeito, a nota é 10 tanto para implosões mal resolvidas quanto para mandatos de promessas não cumpridas
Kassab é um dos fenômenos mais intrigantes das últimas safras de políticos. Se não gastasse um dos maiores orçamentos do País, passaria despercebido. Consta que é bom na movimentação de bastidores. Antes de ser vice de Serra na Prefeitura de São Paulo, certamente o maior troféu “movimentação nos bastidores” dos últimos tempos, ninguém, exceto poucos parceiros, sabia dele.
Com a decisão de Serra de candidatar-se ao governo do Estado, assumiu a Prefeitura e, pouco depois, foi reeleito. Tornou-se conhecido do público basicamente por duas ações. A primeira foi a lei das placas, que tirou muita publicidade das ruas (mostrou belezas escondidas e revelou feiuras e fachadas desgastadas). A segunda foi a gritaria dirigida a um cidadão que reclamou durante a inauguração de um hospital e foi objeto de incrível destempero. Os gritos desvairados de “Fooora, vagabundo!” chamaram a atenção. Prepotência? Descontrole?
Tendo tudo para passar despercebido, tornou-se notório por uma característica peculiar. Parece falar de um lugar vazio, violando regras discursivas elementares. Disse “falar de um lugar vazio” e me ocorreu uma associação. Não estava em meus planos, mas (Freud explica) lembrei os kassabinhos, bonecos essenciais em sua campanha para a Prefeitura, que o elegeram. Cheios de vento, isto é, de nada. Autorretrato?
Para traduzir a personagem, exceto pelo único destempero, nada mais adequado que sua voz neutra, monocórdia, funcionando no automático, indiferente aos fatos, às fotos, à realidade, como na última semana.
No quesito, é um seguidor de Paulo Maluf (guardadas as proporções, sempre), que se tornou célebre também por violar regras pragmáticas. Se fizessem a Maluf, em entrevista ou debate eleitoral, alguma pergunta incômoda, baseada no noticiário, respondia falando de outra coisa. Desconhecia a pergunta, a mais grosseira das formas de lidar com o interlocutor.
Mas Maluf, ao contrário de Kassab, era, às vezes (quando ninguém o seria), de uma explicitude brutal: “Se tem vontade sexual, estupra, mas não mata!”
O Kassab que conhecemos parece ter sido sincero apenas na interpelação ao fabricante de placas. Suas declarações são as mais escorregadias que um político pode produzir. Sua frase mais histórica, se pode haver gradações nesse campo, é sobre a identidade do partido que fundou, cuja sigla foi antigamente o símbolo (o simulacro) da indecisão, o PSD: “Não é direita, nem esquerda, nem centro”. Depois declarou que será de centro e independente. Nem mesmo a decisão de ser indeciso foi mantida!
Nos últimos dias, Kassab voltou à notoriedade. Não produziu declaração memorável, dessas que se debatem e são candidatas a verdades. Foram de novo declarações típicas dos que o povo chama de cara de pau. Sobre a implosão de um prédio que implodiu só em parte, disse e repetiu que a operação foi um sucesso, que o objetivo era liberar trânsito e não derrubar o velho moinho, que os que acham que a operação fracassou deveriam voltar para os bancos escolares… de engenharia.
Atribuiu nota 10 tanto à implosão quanto a seu mandato. Impávido, sempre imodesto, sua nota é sempre 10 (o eleitor parece discordar, mas ele não está nem aí). Assim como defende que uma implosão possa não derrubar toda a edificação, acha que um mandato não precisa cumprir todas as promessas. No negócio de dar notas, angariaria alunos: ganhariam 10 provas feitas pela metade ou com diversas respostas erradas na eskolinha do Professor Kassab.
A humanidade não é muito brilhante. Cria expectativas rotineiras, baseadas nas práticas: implosão é para derrubar todo o edifício, prédio ou estádio; promessa é para ser cumprida, mesmo a política. Kassab revoga essas leis, discípulo do cínico Maluf. Sem personalidade, no sentido corrente (a falta de personalidade não deixa de ser uma, como não fazer política é, paradoxalmente, uma forma de fazê-la), sem voz marcante, sem nenhuma frase “para cima” que mereça ser repetida, nem mesmo uma engraçada, como as do Tiririca, é espantoso que ocupe o espaço político que ocupa, especialmente na era da exposição midiática.
Maluf se notabilizou por fatos e frases, mas uma de suas máscaras mais notórias era a do cara de pau que desconsiderava a fala dos interlocutores: se lhe faziam perguntas sobre corrupção, falava das virtudes da mãe; se perguntavam sobre preços de obras, enumerava as que tinham sua marca. Era um exemplo chapado para teorias pragmáticas e para sua principal regra: se alguém não fala do tema proposto, é porque não quer ou não pode tratar dele; se não pode responder é porque a resposta condenaria. É assim em qualquer inquérito. Daí a regra jurídica segundo a qual ninguém é obrigado a se culpar. O júri não pode considerar, mas qualquer falante sabe o que isso significa: se o réu silencia, o silêncio o condena.
A “regra” de Maluf o denunciava. Kassab segue outro desvio: em vez de falar de outra coisa, declara, quebrando outra regra (elogio em boca própria é vitupério), que tudo o que faz é 10. Mesmo contra as evidências.
Os diversos sentidos de “cínico”, exceto filosófico, caracterizam as falas de Kassab. O estilo é o homem?
SÍRIO POSSENTI É PROFESSOR DO DEPARTAMENTO DE LINGUÍSTICA/INSTITUTO DE ESTUDOS DA, LINGUAGEM DA UNICAMP, AUTOR DE QUESTÕES, PARA ANALISTAS DE DISCURSO (PARÁBOLA)
Jornal Dia a Dia